17/08/09
30/07/09
Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei

Ainda dá tempo de assistir o ótimo documentário de Cláudio Manoel (ele, mesmo, o do Casseta e Planeta), Micael Langer e Calvito Leal sobre um dos maiores cantores brasileiros, Wilson Simonal. Minha recomendação, no caso, tem um certo peso porque eu não sou público-alvo desse filme: não gosto de música brasileira, tudo o que sabia sobre o Simonal era que ele era pai do Simoninha e do Max de Castro, e ultimamente ando com uma preguiça monstro para assistir documentário. Mesmo assim, eu me diverti bastante, além de me emocionar no finalzinho. E DIGO MAIS: até baixei umas músicas do cara que, putz, são boas mesmo.
Um dos pontos positivos do filme é a duração: 84 minutos, tempo perfeito para explicar quem era o cara sem contar absolutamente tudo sobre todas as fases de sua vida. Do período antes da fama, sabemos só o básico: nasceu no Rio, era filho de uma empregada doméstica, serviu no Exército, conheceu o Carlos Imperial, deu um salto na carreira e se tornou não apenas um cantor profissional como também um verdadeiro showman, comandando a cantoria da plateia em um programa de TV. Até aí, tudo muito bem, tudo muito engraçado, porque o cara é aquele típico carioca malandro, que tira sarro de tudo. E as músicas são tão divertidas quanto ele, aquela coisa de "nem vem de garfo que hoje é dia de sopa", sempre bem suingado (isso é uma palavra?), um Sam Cooke/Marvin Gaye brasileiro, talvez.
Eis que o documentário começa a discutir a relação de Simonal com a ditadura, já que um episódio estranho envolvendo seu contador fez com que ele ficasse pra sempre conhecido como um delator, um cara que passava informações dos artistas para os militares. Na década de 1970, naquele momento de ânimos acirrados e divisões ideológicas muito claras, ele passou a ser condenado pela classe artística, que já não gostava de seu comportamento pouco combativo, e depois do escândalo o rejeitou completamente.
Eu não conheço a história do Simonal o suficiente para dar alguma opinião sobre o caso, dizer se ele de fato foi ou não foi dedo-duro, embora alguns dos entrevistados no documentário (que ouve Pelé, Chico Anísio, Ziraldo, Nelson Motta, Miéle, o Boni da Globo e mais uma galera) tenham dado bons argumentos para inocentá-lo. Pelo documentário, fica parecendo que ele não era dedo-duro, mas cometeu um erro ao lidar com o tal caso do contador, um erro fatal que lhe custou a carreira. É triste, depois, vê-lo em programas de TV zuados tendo que se explicar, mostrando documentos, porque aí aquele cara malando e cheio de suingue se torna só um velhinho decadente. Pode ser que o filme queira mesmo criar esse tipo de comoção, "absolver" o Simonal de alguma forma. Mas, ainda assim, esse contraste entre o sucesso e a decadência é sempre cruel, seja o cara "culpado" ou "inocente".
Sendo assim, acho por bem terminar esse post com sucessos:
25/07/09
Quatro em um
Depois de um hiatus sem nenhuma justificativa, o E digo mais está de volta. Tardamos, mas não falhamos, e aqui estou para comentar quatro filmes vistos nos últimos meses e que, por alguma razão xis, não foram temas de posts. E DIGO MAIS: não tenho certeza se todos eles ainda estão em cartaz, mas se não estiverem, uma hora chegam no DVD, então tá valendo.
Começamos com A Garota Ideal, um filme que estreou no Brasil há uns dois meses, muito tempo depois de ganhar hype nos Estados Unidos. Ryan Gosling (ainda não decidi se gosto dele ou não, mas nesse caso gostei) interpreta um cara solitário e claramente cheio de problemas e questões mal resolvidas que mora em uma cidadezinha onde todos se conhecem. Um dia ele anuncia ao irmão e à cunhada que conheceu uma garota, notícia que eles recebem com bastante festa. O problema é que a garota não é bem uma garota, e sim uma boneca comprada pela internet, daquelas meio safadinhas, né? E o mais estranho é que ele realmente acredita que a boneca é real, então conversa com ela, leva para passear, faz planos etc, enquanto sua família e seus amigos tentam levar a situação da melhor forma possível. Meu amigo Juliano me perguntou por que eu tinha gostado desse filme, que para ele, à primeira vista, parecia mais um indiezinho americano, ou seja, mais um filme bobo. Realmente, não estamos falando de nenhum graaaaaande filme, e talvez aqui e ali ele seja mesmo um pouco bobinho. Mas a presença daquela boneca em cena é uma grande sacada, porque faz com que mesmo as cenas mais sentimentais, que costumam ser os pontos baixos dos filmes indies americanos, guardem certa graça, certa pitada de humor. De forma geral, a história tem, digamos, espírito, o que, acredito, se deve ao talento da roteirista Nancy Oliver, uma das três mulheres indicadas ao Oscar de Roteiro em 2007. As outras duas foram a Sarah Polley, que concorreu a Roteiro Adaptado por Longe Dela, e a Diablo Cody, que venceu a Nancy Oliver e mais três concorrentes a Roteiro Original com uma babaquice sem tamanho chamada Juno. Quando saímos da sessão de A Garota Ideal, o Marcelo imediatamente fez a comparação entre os dois filmes que, de certa forma, estão meio que na mesma categoria: filme indie americano com um sacada legal. Mas, como ele disse, a diferença entre os dois é enorme: por não apostar em personagens descolados sempre prontos para fazer uma referência pop, A Garota Ideal está anos-luz à frente.
Outro filme que gerou discussão nos Estados Unidos, já em 2009, foi Intrigas de Estado, o filme sobre jornalismo deste ano (sempre tem um, né?). Eu confesso que não li muito sobre o hype por trás da produção, mas pelo que eu entendi causou certo frenesi o fato de o filme tratar sobre o confronto entre velha e nova mídia, ainda que esse não seja seu tema principal. Basicamente, o Russell Crowe é um jornalista da velha guarda, respeitado, esperto e cheio das fontes, que está cobrindo/investigando (jornalista é sempre meio policial nesse tipo de filme) um assassinato. Na redação do jornal em que ele trabalha, a bola da vez é a Rachel McAddams, uma jornalista novinha que comanda um blog na versão online da publicação - que, atualmente, dá muito mais grana que a edição impressa, claro. Essa menina está cobrindo/investigando outro caso: o da morte de uma assessora/amante de um político que estava mexendo com gente importante em umas comissões no Congresso. Acontece que esse político, interpretado pelo Ben Affleck (ainda não desistiram dele), foi melhor amigo do Russell Crowe durante anos, então a menina pede ajuda dele para descobrir umas coisinhas. A princípio ele recusa, mas depois vê que há a possibilidade de o tal assassinato que ele cobre/investiga estar ligado ao da morte que ela cobre/investiga. E aí começa aquela coisa de fontes, pistas, gravações, reviravoltas, nada é o que parece, coisinhas do passado que voltam à tona e ficamos nessa durante mais de duas horas que são tão divertidas quanto parecem. E aí vocês me perguntam: e a tal discussão sobre velha mídia e nova mídia? Bem, eu sinceramente achei a discussão uma lama. Porque é aquela coisa: o Russell Crowe, jornalista fodão da mídia impressa, é um cara desleixado, cabelo desgrenhado, barrigão, cansado etc. Enquanto a menina dos blogs é toda emperequetadinha, bonitinha, arrumadinha e tão sem experiência que não aprendeu nem que precisa carregar uma caneta na bolsa, coisa que o professor Russell Crowe está lá para ensinar. Por aí já dá para ver que a discussão é cheia de clichês, que vão ser amplificados pela personagem da Helen Mirren, a editora do jornal, que, seguindo orientações dos acionistas, aposta cada vez mais no online e menos no impresso. O problema é que ela não confia na equipe do jornal online, tanto que escala o Russell Crowe pra ajudar a novatinha. Em outras palavras, a mim pareceu que esse filme faz muito mais uma louvação da velha mídia do que qualquer outra coisa. Tanto que, quando os dois finalmente resolvem o caso (ou acham que resolveram, porque nunca é tarde para mais uma reviravoltinha suuuuper interessante), a Rachel McAddams diz para o Russell Crowe que aquela reportagem é tão importante que deve sair primeiro no impresso e depois no site. Em resumo, Intrigas de Estado não funciona nem como filme de suspense, que dirá como parte relevante da discussão sobre os rumos da imprensa.Há Tanto Tempo que te Amo é um filme que, apesar de francês (hahahaha), eu esperei por vários meses, desde que, no ano passado, li críticas muito elogiosas à atuação de Kristin Scott Thomas no papel de uma mulher que deixa a prisão após 15 anos e vai morar na casa da irmã. Por ter lido bastante sobre o filme, acabei sabendo um pouco mais do que deveria sobre ele, o que acredito ter sido prejudicial. Por isso, não quero contar muito da história. Basta dizer que o filme mostra a reintegração à sociedade de uma pessoa que, além de ter passado muito tempo sem liberdade, também é marcada pelo trauma de um crime horrível, que traz uma dor meio inimaginável até. A Kristin Scott Thomas realmente está incrível, principalmente porque na postura e nas expressões (ou na falta de expressões) ela mostra exatamente o que é a sua personagem: uma espécie de fantasma, pra sempre assombrada pelo que fez (o pôster já dá uma boa ideia do que eu estou falando, aliás). E é incrível pensar que ela é inglesa, mas interpreta tão bem, com tanta verdade, em outra língua, no caso o francês. É raro ver atores tão confortáveis ao atuar em outra língua, por mais que sejam fluentes nela, o que só dá mais pontos para a Kristin Scott Thomas. A performance fica ainda melhor quando ela divide a cena com Elsa Zylberstein, a intérprete da irmã, porque é um daqueles casos de sintonia perfeita entre duas atrizes, em que uma levanta a bola da outra. Elas são o grande tchan do filme, que é bem bonito mas, de vez em quando, um pouquinho mais pesado do que deveria.
Antes de mais nada, quero deixar claro que não, eu não li Harry Potter e o Príncipe Mestiço, portanto esta será uma análise do filme apenas, sem comparações com a versão literária e xororôs do tipo "faltou tal coisa", "cortou muito", "o livro é bem melhor" e blá blá blá. Sinceramente, sempre achei essa discussão meio pointless. Óbvio que o livro é melhor. O livro pode ter quantas páginas e detalhes a J.K. Rowling quiser, cada um vai escolher seu ritmo de leitura, cada um vai ter a deliciosa tarefa de imaginar as cenas etc. Acontece que literatura é literatura e cinema é cinema. Para fazer um filme é preciso adaptar, resumir, escolher, às vezes até distorcer - sem contar que o filme de fato mostra cenas, cortando aquela graça de você imaginar do seu jeito. Se o roteirista e o diretor fazem um erro muito grotesco, tipo mudam uma coisa fundamental do livro, até entendo o mimimi dos fãs. Mas se a crítica é só ao fato de a história ficar mais enxuta no cinema, não só não entendo como discordo: quero mais é que cortem bastante, porque senão cada filme do Harry Potter teria cinco horas de duração e seria um saco. Ao contrário, todos os filmes do Harry Potter são divertidos pra caramba, independente de eu ter lido o livro ou não (parei no quarto). Acho interessante notar que, apesar de ser uma história infantil ou infanto-juvenil, você olha para o lado e só vê adulto no cinema. Não sei dizer o motivo, o que exatamente essa história tem de cativante, mas acho que a J.K. Rowling de fato criou uma coisa meio memorável. O sexto filme é um pouco diferente dos outros, sobretudo porque Harry e seus amigos cresceram super, são adolescentes e estão na vibe hormônios, então rola uma certa pegação em Hogwarts que eu achei engraçadíssima. Por outro lado, mesmo com menos ação e mais amorzinho, ainda fica aquele climão sombrio, já que agora todo mundo sabe que Voldemort está de volta (e o Voldemort é um personagem tão bom que, mesmo sem aparecer, está sempre presente). Mas eu continuo achando que a melhor coisa dos filmes do Harry Potter é a escalação do elenco adulto. Pelos seis filmes da série já passaram um monte de bons atores da Grã-Bretanha, como Richard Harris, Michael Gambon, Gary Oldman, Maggie Smith (ótima nesse sexto filme), Helena Boham Carter, Ralph Fiennes, Imelda Staunton e Alan Rickman, meu preferido, que faz um Snape muito melhor do que o que eu tinha imaginado ao ler o livro. Essa ideia de compensar a ruindade dos atores jovens com o talento dos personagens adultos foi crucial e é, na minha opinião, um dos fatores que faz de Harry Potter a melhor série de filmes-pipoca do momento.
No mais, é isso.
08/06/09
A Mulher Invisível

Uma coisa bastante interessante de se observar é o quanto o "peso" dos atores mudou ao longo da história. Não vou me estender muito sobre isso, mas, basicamente, nos primeiros anos do cinema os atores nem eram identificados, por dois motivos principais: vergonha de fazer filme (teatro era o grande tchan) e medo dos produtores de que a fama fizesse com que eles pedissem um cachê mais alto. Até que um dia um produtor xis que eu não lembro o nome falou que uma atriz conhecida como "The Biograph Girl" se chamava Florence Lawrence, plantou uns rumores sobre a vida dela, alimentou o interesse do público, que foi crescendo com a popularidade de revistas sobre artistas etc etc etc. A coisa foi indo até chegar no chamado "star system", segundo o qual os estúdios promoviam os filmes totalmente baseado nos atores, como Cary Grant e Bette Davis, por exemplo. Aí os atores começaram a se sentir meio explorados, rolaram uns processos, a coisa toda começou a degringolar e em determinado momento o star system perdeu força, de modo que as estrelas deixaram de estar tão vinculadas aos estúdios. Mas é claro que, ainda hoje, um pouquinho de star system existe, no sentido de que a presença de certos atores pode vender um filme. Quando o George Clooney foi dirigir Boa Noite e Boa Sorte, por exemplo, a Warner exigiu que ele também atuasse. Afinal, uma produção em preto e branco sobre jornalismo estrelada por um tal David Strathairn não levaria ninguém ao cinema. Se a cara e o nome do Clooney estivessem no pôster, talvez isso mudasse.
Esta longa introdução me parece importante para falar sobre A Mulher Invisível, um filme de Cláudio Torres sobre um homem que, largado pela esposa, se decepciona com a vida e diz que gostaria de "nunca mais ver uma mulher". Nessa hora ele ouve uma batida na porta, abre e se depara com a mulher ideal: bonita, legal, que gosta de futebol, limpa a casa, não é ciumenta, lá lá lá. O problema: ela não existe, é apenas fruto da imaginação dele.
A sinopse não é exatamente genial, mas resume uma história com potencial para ser divertida, na mesma linha de filmes como Sexta-feira Muito Louca ou, pra ficar em cinema nacional, Se Eu Fosse Você. Essas coisas de troca de corpo, mulher imaginária, esse tipo de situação impossível é sempre meio bobinha, mas pode render risadas (eu tenho sérias restrições à Se Eu Fosse Você e anything Daniel Filho, mas devo dizer que algumas cenas foram muito engraçadas). E, de fato, A Mulher Invisível tem seus momentos de humor, que consistem basicamente no protagonista dando beijos no ar, falando sozinho, esse tipo de coisa meio pastelão. O filme é basicamente isso: uma comédia romântica com humor pastelão.
O problema é que A Mulher Invisível não é estrelado pelo Tony Ramos e a Glória Pires, mas, sim, pelo Selton Mello, que em algum momento da sua carreira se tornou o ator brasileiro que todo mundo respeita. Nos últimos anos, vários atores se tornaram "necessários" em qualquer filme que quisesse ser respeitado, como Matheus Nachtergaele ou Lázaro Ramos. Mas o único que nunca sai de moda é o Selton Mello, com aquele jeitinho engraçado e, segundo a Veja Rio, o projeto de ser "o Clint Eastwood brasileiro": ator, diretor, produtor, homem multitalentoso. Nesse sentido, eu tenho certeza - certeza - de que escalar o Selton Mello para esse filme não foi uma decisão baseada apenas no talento dele. Mas é que com o Selton Mello, um ator respeitado, essa história pastelão ganha um arzinho superior. O Selton Mello não é um galã da Globo, ele é o jovem ator mais respeitado do Brasil, a cara do cinema nacional, o nosso futuro Clint Eastwood (pffffff). Falo por mim mesma: eu fui ver esse filme porque o que eu queria já tinha esgotado, mas fosse qualquer outro ator brasileiro o protagonista, talvez eu preferisse voltar para casa sem ver nada. Mas é que a gente olha o Selton Mello no pôster e pensa "ah, deve ter uma sacada, não deve ser tão babaquinha".
Só que sim, é um filme babaquinha. É um filme babaquíssimo, totalmente Globo Filmes, cujo elenco consiste em Luana Piovani (sem timing nenhum, o tipo de atriz que fala as frases como se estivesse lendo, sem um pingo de naturalidade e muito menos carisma), Vladimir Britcha (que se esforça, coitado, mas é limitadíssimo), Fernanda Torres (engraçada, mas naquele esquema de sempre), Paulo Betti (tem duas cenas, as duas são ruins) e participações especiais de Karina Bacchi (aquela com cara de boneca inflável) e Danni Carlos (atual participante de A Fazenda). Esse filme é uma babaquicezinha qualquer, que se fosse estrelada pelo Reynaldo Gianecchini (e poderia muito bem ser), ninguém levaria a sério. Mas como é o Selton Mello, opa, não deve ser tão banal.
E aí vem a questão que eu fiz a mim mesma durante todo o filme: o Selton Mello é bom mesmo? O Selton Mello é realmente um bom ator, ou apenas um ator divertido que faz aquela mesma atuação engraçadinha que deu certo há uns 13 anos em A Indomada? O Selton Mello é o tipo de ator que se repete com graça, como Cary Grant ou - para diminuir o nível e facilitar a coisa pro lado dele - Hugh Grant, ou é simplesmente um ator repetitivo? Afinal: o Selton Mello é um bom ator ou apenas uma grife que deu certo?
Porque, como eu disse, tenho uma boa impressão do cara, fui ver o filme porque ele não é o Giannecchini. Mas, juro, a atuação dele é tão ruim, ou talvez não exatamente ruim, mas tão constrangedora e incômoda, que me fez questionar o trabalho dele como um todo, não só nesse filme, não só nesse papel, não só agora. E DIGO MAIS: já tive o desprazer de assistir o trailer de um filme chamado Jean Charles, no qual o Selton Mello interpreta adivinhem quem, e fiquei assustada com o que vem por aí. Lembrando que o último filme que eu tinha visto desse cara fora Os Desafinados, eu já chego a ao menos uma conclusão: ele faz escolhas péssimas. Então, caro Selton, se você quer mesmo ser o Clint Eastwood brasileiro (eu não li a matéria, então tenho fé que essa chamada seja uma sacadinha de algum jornalista e não uma frase literal do entrevistado), comece melhorando - e muito - seus critérios.
25/05/09
Budapeste

Eu li este livro do Chico Buarque em 2004, porque era leitura obrigatória para o vestibular da faculdade que eu viria a cursar - e onde, curiosamente, Chico Buarque é cultuado por grande parte dos alunos de um jeito bem blá. Eu gosto do Chico Buarque, na verdade: ele é um nome importante para a cultura e a história do Brasil, é um bom compositor, tem músicas boas, é inteligente e discreto, em nada lembra o mala do Caetano ou o confuso do Gil. Mas também não acho o cara esse Deus intocável do qual alguns falam, e por isso nunca tive vergonha de dizer, até para o mais fã dos meus colegas, que achei Budapeste um puta saco. Bem escrito e tal, mas chato, tão chato que eu nem lembro direito. Tanto que, quando fui ao cinema ver a versão cinematográfica, hoje, só me lembrava de duas coisas: 1 - que eu não tinha gostado; 2 - que o final tinha alguma jogadinha metalínguística que eu não estava absolutamente certa de que tinha entendido.
Ao ver o filme, lembrei um pouco mais: lembrei que ao ler tive uma sensação de opressão, de estar em um lugar meio abafado, que é tipo uma das cinco sensações que mais me fazem mal. Isso porque o personagem principal da história, José Costa, um ghost writer que se divide entre Rio de Janeiro e Budapeste, é um dos maiores malas que eu me lembro de ter visto em livro/filme (no filme achei pior, aliás). O cara escreve livros para outros caras terem a glória, mas quando a mulher dele começa a pagar pau pro "autor de mentira", ele começa a se incomodar. Como a vida dele no Rio, com essa mulher totalmente tonta (interpretada pela Giovanna Antonelli, mais péssima que o normal) e um filho para o qual ele nem liga, é sufocante, ele volta para Budapeste, onde, certa vez, foi parar devido a um problema de voo. Lá ele conhece uma menina esperta, que lhe ensina húngaro e oferece uma vida mais animada, porém com outros problemas, afinal, o cara é o problemático-mor. Como resultado, lá vamos nós acompanhar as idas e vindas do cara, ele vagando pelas ruas do Rio, ele vagando pelas ruas de Budapeste, ele com cara de frustração no Rio, ele com cara de frustração em Budapeste, ele se achando melhor do que tudo aquilo no Rio, ele se achando melhor do que tudo aquilo em Budapeste, e por aí vai. Que prazer eu sinto em acompanhar tudo isso? Absolutamente nenhum. E DIGO MAIS: vocês poderiam argumentar que a intenção é essa, sufocar o espectador, fazer com que ele se sinta como o protagonista, mas mesmo se for esse o caso, o filme peca por pesar a mão. Fica parecendo que você não está no cinema para se divertir, e, sim, para pensar, pensar e pensar, sobretudo tentando desvendar as metáforas e metalinguagens que vê na tela. O problema é que para pensar sobre um filme eu preciso querer pensar sobre um filme. E, no caso de Budapeste, quanto mais mini-reviravoltinhas e maxi-sacadinhas apareciam, menos eu queria pensar sobre o que elas significavam.
Mas tudo bem, vai, ainda estamos no meio do filme, a fotografia é bonita, Budapeste parece ser uma cidade legal, vamos relevar porque quem sabe chega em algum lugar. E, de fato, chega em algum lugar: chega em um final totalmente tosco, que inclui 1 - uma cameo de Chico Buarque himself, pedindo autógrafo pro José Costa, num momento totalmente corta-clima que fez a sala inteira dar risada; 2 - uma cena patética em que o José Costa joga um prato na parede e grita, em húngaro, "eu não aguento mais comer espaguete a bolonhesa" (ele histérico é mais chato ainda); 3 - um pseudo-filme de terror no qual o cara é assombrado por um fantasma, que se veste igualzinho à Dona Morte da Turma da Mônica, mas na verdade é a representação da estátua de um autor anônimo em Budapeste (autor anônimo, ghost writer, sacaram? sacaram?) - e por pseudo-filme de terror leia-se umas cenas zuadas com trovão, música de medinho e efeito de luz. Eu fiquei esperando que, quando a Dona Morte tirasse o capuz, revelasse a cara do Chico Buarque, mas isso seria pedir bom humor a um filme desprovido de qualquer leveza, que faz questão de ser o mais intelectualóide, artístico e "importante" possível. Afinal, é uma adaptação do filme do Chico, e o Chico é Deus, certo? Pois é: Deus merecia um filme menos sacal.
17/05/09
O Equilibrista

Este vencedor do Oscar de Melhor Documentário deste ano conta a história de um french muito doido que resolveu pendurar um fio entre as falecidas Torres Gêmeas e ir de uma a outra fazendo equilibrismo. E DIGO MAIS: a história é verdadeira e o cara existiu mesmo - aliás, ele ainda existe, tanto que dá depoimentos no filme, junto com amigos e a namorada da época, que o ajudaram a realizar tal façanha.
É uma história realmente muito louca, porque eles entraram nas torres, subornaram um segurança, se esconderam até a noite atrás de uns troços e fizeram um puta esquema que eu até poderia tentar explicar, se não tivesse dormido durante dois terços desse filme que putz, desculpa, é muito chato.
Ok, a história é boa, o personagem é bom, a imagem do cara andando lá em cima é muito boa e ver as Torres Gêmeas, por si só, já me arrepia. Mas nada disso justifica 94 minutos, principalmente porque boa parte (bem, boa parte da parte que eu não dormi) é gasta em umas encenações toscas e em depoimentos de um tanto de gente mala, sobretudo a namorada do cara, que fala um francês histérico.
E ok, eu sei que um monte de gente que eu respeito gostou desse filme, e eu também sei que, tendo dormido pacas, eu não deveria dar opinião sobre ele. Mas, sendo esse o E DIGO MAIS, lá vai minha opinião:
Puta filme sonífero.
12/05/09
A Janela

Muitas vezes eu saio do cinema pensando que se escrever comentários sobre filmes fosse uma obrigação e não um prazer na minha vida, eu estaria em apuros. Porque ok, quase sempre eu tenho opinião sobre as produções e até que me esforço para fundamentá-las (a não ser que se trate de implicância, o que geralmente eu assumo). Mas existem alguns filmes sobre os quais eu não sei o que falar, que não são ruins nem bons, não me incomodam nem me provocam entusiasmo. Encher um determinado espaço de página sobre filmes assim deve ser difícil.
Com essa minireflexão eu já ganhei um parágrafo neste post, que é dedicado a um desses filmes nem-lá-nem-cá: o argentino A Janela, que conta a história de um escritor de 80 anos que está mal de saúde, sem poder ficar muito tempo fora da cama, e que espera pela visita do filho, um pianista famoso que mora na Europa e com quem ele não tem muita relação. E é meio que só isso mesmo: ele espera o filho, as empregadas da casa o ajudam, um cara vai na casa afinar o piano para que ele esteja pronto quando o filho chegar, e não vai muito além disso em termos de ação. Não estou dizendo que o filme é chato ou monótono, porque não é. Essa falta de ação - imagino - é proposital e se relaciona com a própria história, que é sobre o tempo e a velhice. O filme é uma grande espera, assim como a vida do velho escritor, e isso é bem bonito.
Na verdade, o filme todo é bonito: na história, na fotografia, nos longos silêncios, nas perguntas que o diretor não responde (por que pai e filho brigaram, por exemplo?). Mas é aquela beleza ok, nada que você fique totalmente espantado, nada que você não tenha visto antes, nada que renda muito comentário. Em outras palavras: esse filme é um pouco chocho, do tipo que não marca.
Porém, ele me fez perceber uma coisa: que eu prefiro mil vezes um filme argentino chocho que um brasileiro cheio de hype. Não é que eu esteja querendo defender os hermanos (embora faça isso com frequência), mas me parece que o cinema argentino está muito além do nosso. Os filmes deles podem até ser meio parados e ter esse jeitão meio morno, mas sempre parecem mais bem acabados e ter mais bom gosto, pois mesmo as produções argentinas sobre prisão ou pobreza (assuntos típicos da cinematografia brasileira atual), como Leonera ou Clube da Lua, não têm aquela coisa espalhafatosa que nós temos (salvo exceções). E DIGO MAIS: uma vez eu disse a um cineasta mexicano que todos os filmes do México que eu via eram fantásticos, e ele me disse que era porque eu só via um ou dois por ano. É provável que isso se aplique à Argentina, e lá também exista um tanto de filme lixão. Mas assim, à primeira vista, um a zero pra eles.
02/05/09
Procurando Nemo

Toda pessoa tem os chamados "fun facts": pequenas curiosidades sobre ela mesma que causam estranhamento nos outros. Eu tenho vários fun facts, e muitos deles são ligados a cinema. O principal: eu vi A Bela e a Fera 48 vezes - e só chorei na quadragésima quinta, o que já é outro fun fact. E DIGO MAIS: esse fato acaba tornando mais bizarro um outro fun fact sobre mim: eu nunca assisti Procurando Nemo, considerado por 8 entre 10 pessoas o melhor desenho animado dos últimos anos. Afinal, como é possível alguém assistir 48 vezes um desenho de 1992 e não ter nem um pinguinho de interesse pela so-called melhor animação dos últimos anos? Xis, não sei. Não é que eu não goste mais de desenho animado. Se está passando, eu até assisto. Mas ir ao cinema para ver animação...sei lá...não tenho essa vontade.
Porém, hoje eu fiquei com um fun fact a menos: assisti Procurando Nemo, que realmente é, se não o melhor desenho animado dos últimos tempos (eu não saberia dizer, porque não vi os outros), um filme divertidíssimo e muito bem sacado. A história, vocês já devem conhecer, é sobre um peixinho fofo que é superprotegido pelo pai, um peixe não muito maior que morre de medo do oceano. Um dia rola um stress e o peixinho é capturado por um homem e levado para um aquário. Aí o filme se divide entre a batalha do pai para vencer o medo do oceano e encontrar o filho e a batalha do filho para sair do aquário e encontrar o pai.
São váaaarias situações nos 100 minutos (boa duração) de filme, e todas muito divertidas. A minha parte favorita foi a que o pai encontra umas tartarugas na Austrália, que falam "duuuuude" e "awesome" hahahaha. Eu lembro que uma vez vi uma animação dessas recentes, chamada Chicken Little, e fiquei chocada com a quantidade de referências adultas, que uma criança não iria compreender. No caso de Procurando Nemo, acho que tem um pouco disso: uma criança talvez não saque totalmente a graça de, na Austrália, as tartarugas falarem e agirem como surfistas. Mas como a referência é sutil e está bem misturadinha aos elementos infantis (ao contrário de em Chicken Little), funciona bem: o filme fica legal tanto para as crianças quanto para os pais (e também para gente como eu, que é something in the middle). Portanto, todos os amigos que me achavam zuada por não ter visto Procurando Nemo podem ficar tranquilos: vi, gostei e o próximo é Ratatouille.
27/04/09
Eu Odeio o Dia dos Namorados
Vocês certamente se lembram do fênomeno Casamento Grego, um filme babaquinha, porém muito divertido, que virou sensação em 2002 e lançou um nome para o mundo: Nia Vardalos, a feia-mas-mega-charmosa protagonista, que também era responsável pelo roteiro. O que ela fez nesses últimos sete anos eu não sei (me lembro de um filme dela com a Toni Collete e só), mas agora ela está de volta como atriz, roterista e diretora de Eu Odeio o Dia dos Namorados, outra produção babaquinha e divertida (embora menos, já que faltam aquelas trapalhadas gregas que eram legais demais).Nesse filme ela interpreta Genevieve, uma mulher que jurou para si mesma que nunca um homem ia fazê-la sofrer. Para isso, criou um sistema: ela só sai com um mesmo cara cinco vezes, pois segundo ela esse é o número certo para se divertir e ter romance na vida, sem tristeza. Depois de cinco encontros, começam os problemas, as cobranças e a infelicidade.
Genevieve ia muito bem nesse sistema até encontrar Greg (o mesmo cara gato de Casamento Grego), um bonitão gente boa que topa a ideia dos cinco encontros porque está cansado de levar foras das namoradas e se dar mal no amor. A ideia deles é: zero expectativa, zero decepção. Mas claro que rola uma mega conexão, os cinco encontros começam a parecer poucos, e aí começa o problema a ser superado pelo casal, no estilo comédia romântica.
Eu Odeio o Dia dos Namorados não chega a ser um título memorável do gênero, mas tem três coisas bem legais: 1 - quem tem medo de compromisso, no caso, é a mulher, o que já representa uma inversão de papéis em relação a tipo 90% das comédias românticas; 2 - o casal tem uma química fantástica, algo fundamental e cada vez mais raro; 3 - a Nia Vardalos tem um carisma impressionante, e só vê-la falar é divertido, mesmo quando a piada é fraca. E DIGO MAIS: se tem originalidade, química e uma atriz carismática, já passou da média.
01/04/09
O Visitante
Richard Jenkins é a razão pela qual eu fui assistir esse filme escrito e dirigido por Thomas McCarthy, que estreou atrás das câmeas em O Agente da Estação, mas fez um monte de filmes como ator (Boa Noite e Boa Sorte, Syriana, A Conquista da Honra, entre outros). Talvez o fato de ele também ser um character actor tenha algo a ver com a escolha do Richard Jenkins para o papel principal. Ele, pra quem não está associando o nome à pessoa, é o intérprete do dono da academia em Queime Antes de Ler, entre outros papéis pequenos, porém marcantes. Eu tinha certeza que ele não decepcionaria ao ganhar um filme todo, e estava certa. A atuação do Jenkins em O Visitante é fantástica: sutil, discreta e muito comovente.Ele interpreta Walter, um professor universitário solitário, que um dia precisa viajar a Nova York para um congresso. Quando chega em seu antigo apartamento, ao qual não ia há anos, ele encontra um casal vivendo ali. Os dois - ele nascido na Síria, ela no Senegal - alugaram o apartamento sem saber que o dono ignorava a negociação, e Walter, ao invés de ficar bravo, convida-os para ficar no local. Assim começa uma bonita relação de amizade entre ele e, principalmente, o rapaz, que tem toda a energia e animação que o Walter perdeu em algum momento de sua vida. O problema é que o rapaz é preso e passa a correr o risco de ser deportado. Walter, então, decide ajudá-lo e começa a conhecer a difícil situação dos imigrantes nos Estados Unidos.
Não sei se o meu interesse pelo assunto imigração é maior que o da maioria das pessoas, mas acho que esse é um dos melhores temas para filmes, pelo menos no momento. Porque sabe quando você conhece um gringo, começa a conversar sobre como são as coisas no seu país e a ouvir como são as coisas no país dele? Não é muito legal? Não dá assunto para muito tempo de boa conversa? Em filme, acho que é mais ou menos assim. Tem tanta possibilidade de sair uma história boa a partir desse tema, porque é possível abordar desde as diferenças entre as culturas e o aprendizado que pode surgir de uma amizade improvável, até as discussões sobre a tolerância, a justiça e as relações entre as pessoas. E DIGO MAIS: O Visitante não tem a força de Gran Torino nem a sensação de urgência de Entre os Muros da Escola, mas é um pequeno grande filme que vale a pena ser visto.
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